Dane Babysitter

Eu passei a vida relativamente bem cercada de crianças, geralmente primos. Mas sempre estavam em outras cidades, de modo que eu nunca tive convívio direto com elas. Estou vivendo isso pela primeira vez aqui em Munique, convivendo com a filha da minha melhor amiga, de dois anos.

Eu e Rafa já tínhamos bancado o casal-babysitter uma vez para nossos amigos saírem. Foi fácil, a pequena já tinha ido para a cama e nós só precisamos devolver a ela a chupeta que caía de vez em quando para que ela parasse de chorar.

Da última vez a coisa foi diferente. Seria eu a pessoa que a colocaria para dormir. Sem treinamento prévio. Eu cumpriria todo o ritual de trocar fralda, dar mamadeira, colocar o pijama, ligar a musiquinha, colocar no berço. A experiência eu não tinha (nunca tinha trocado uma fralda na vida), mas cansei de ver a minha amiga fazer isso e não via mistério algum. Minha amiga, por sua vez, confiou na minha pessoa, e no fato de eu ser paciente, atenciosa e cheia de boa vontade e amor para dar. O que, na verdade, deve ser o mais importante.

A noite começou agitada. Ela passou uns vinte minutos chorando e chamando pela mamãe depois que mamãe saiu com o papai. Em algum momento consegui distraí-la com brincadeiras, o irmão chegou também, e tudo ficou em paz. Até a hora de colocá-la para dormir.

Economizando os detalhes: consegui colocar nela uma nova fralda folgada e o pijama. Não consegui dar a mamadeira (essa quase foi arremessada longe). Não consegui mantê-la no berço. Aliás, nem no quarto ela queria ficar. Chorou por cerca de trinta minutos chamando pela mamãe, andou pela casa, calçou a bota de chuva e tentou abrir a porta para sair para a rua atrás dos pais. A calma só veio quando eu desisti do ritual padrão, peguei-a no colo e cantei para ela. Na sala, claro. No quarto dela não funcionava. Em algum momento ela dormiu nos meus braços e depois foi para o berço.

Essa foi a minha primeira vez como Babysitter.

Mas, mudando de assunto, mas nem tanto…

Eu sempre digo que um dos motivos de eu gostar tanto de estar aqui na Alemanha é o fato de não haver a tal da pressão social que eu sempre senti no Brasil. Aquela coisa de solteira tem que ter namorado, namorando tem que casar, casando tem que ter filho, tendo filho tem que ter um irmãozinho para o filho. E, passando da idade “padrão” para cumprir esse protocolo, tem que ter  muita personalidade para se manter firme nas próprias decisões.

Eu fiz tudo depois da idade padrão. Tudo. O primeiro namorado foi depois da média, a “primeira vez” foi depois da média, o casamento veio depois da média. Veio tudo no meu tempo, quando eu quis e me senti preparada para tal. Ok, algumas coisas poderiam até ter acontecido antes ou foram um pouco – mas só um pouco – adiadas por motivo de força maior, mas isso é outra história. A única coisa que não seguiu tanto o cronograma padrão para a contecer foi o desenvolvimento profissional.

Diz o Rafa que, no Brasil, já rolam comentários de amigos e familiares dizendo que teremos filhos logo. Já há uma expectativa, sei lá porque, visto que todos sabem que namoramos à distância o tempo todo. Deve ser porque vou fazer 33. Mas não, não teremos filhos agora. Se acontecer, saibam que foi acidente.

Aqui na Alemanha esse tipo de comentário é muito raro. Mas agora, apesar de eu não sentir pressão no sentido de engravidar por aqui, existe uma pequena e sutil “pressão implícita”. Ela vem mais da minha cabeça, na verdade. Estou cercada de amigas com filhos. É, gente… na Baviera é diferente. Enquanto Berlim é quase uma cidade para solteiros e praticamente todos os meus amigos ainda estão sem filhos, Munique é uma cidade para famílias. São poucos, na nossa faixa etária, que ainda não tiveram seus rebentos.

Eis que me vejo então, vez por outra, fazendo programas de criança, e com poucas opções de companhia para fazer outras coisas. Nada contra, eu realmente gosto, amo a minha pequena sobrinha potiça e me derreto quando ela corre pra mim sorridente me chamando de Dane.

Mas eu não tenho filhos. As rotinas são diferentes, meu pique ainda é para fazer outras coisas que quero fazer antes que os meus venham. Não falo necessariamente de programas noturnos, mas também coisas como trilhas e caminhadas pelas redondezas. Daí ocorrem aqueles pensamentos sobre procurar amigos sem filhos ou trazer logo o primeiro ao mundo. Entendem o que eu falo de “pressão implícita”?

Ainda estamos firmes na primeira opção. Vale o mantra: “não teremos filhos agora, não teremos filhos agora, não teremos filhos agora.” Sem essa de relógio biológico. O resto eu estou canalizando para o trabalho. Um certo perigo, tenho essa tendência para ser Workaholic, o que não é necessariamente saudável.

Mas, quando o Rafa chegar aqui, arranjaremos outras coisas para fazer. O que inclui bancarmos o casal-babysitter para nossa sobrinha postiça de vez em quando.

 

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2 pensamentos sobre “Dane Babysitter

  1. Jane,

    Sou completamente de acordo com vc sobre as pressoes que acontecem no Brasil e na Europa nao acontece. Sabe que eu tenho receio de voltar pra là e ouvir a expressao “mas vc nao arrumou nenhum italiano por là?” como se fosse o absurdo estar solteira.
    Meu tempo tbem è diferente, assim como a minha pessoa.
    Otimo post.
    Bjos

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